VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

sábado, 24 de junho de 2017

Em terra de tratores, quem faz
punk rock é detrator

Por Norberto Liberator Neto

Não é novidade alguma dizer que a capital sul-mato-grossense, conhecida por ser o principal reduto do chamado sertanejo universitário, é uma cidade de longa tradição no rock underground. Pode ser algo ignorado por grande parte do Brasil, mas ainda assim não deixa de ser um fato.
O mais novo exemplo de que Campo Grande vai além de Luan Santana, Michel Teló e Camaro Amarelo (com todo o respeito) é o som belo e sujo dos Detratores. A banda, mesmo com a formação incompleta, registrou e disponibilizou no YouTube cinco músicas do álbum ‘Mundo Podre S/A’, que traz, pela primeira vez, as versões em estúdio de canções compostas, em parte, ainda nos anos 80.
O homem por trás de todas as letras, do baixo pulsante, do nome e da ideia da banda é Ravel Giordano Paz, escritor, professor na Universidade Estadual de MS e, pode até não parecer, punk até o osso. Já quem assina a produção e segura a bateria (ambos dividem as guitarras) é Fillipe Saldanha, vocalista da excelente Codinome Winchester, uma das principais promessas da cena indie brazuca.
Tudo feito no estúdio do produtor e no quarto do próprio Ravel, com cuidado para soar com a sujeira necessária. Este colunista que vos escreve também deu sua contribuição, desenhando o logotipo da banda – e a capa, que será divulgada junto com o álbum já pronto.
A primeira faixa disponibilizada é ‘Arquivos de Guerra’, uma canção “ramoniana” com melodia que gruda na mente, cuja letra é um recado voraz aos defensores de políticas de guerra. Destaque para o timbre de Ravel, que lembra algo entre Marcelo Nova e Nasi nos primórdios do Ira!.
Logo em seguida, vem ‘Enquanto Comemoram’, que prossegue na levada a la Ramones e traz, na letra, uma crítica à desigualdade e seus efeitos: denuncia a pobreza extrema de uns “enquanto outros comemoram e só se importam com seus dedos e anéis”.
Batidas no bumbo anunciam a entrada de ‘Truculus’, cujas mudanças bruscas de ritmo e melodia me remetem a Dead Kennedys. A letra é sobre pessoas que levam um estilo de vida conformista ou autodestrutivo e que pensam ser livres ou felizes, quando não deixam “de ser mais um escravo”.
O Rumor’, curtíssima, é a mais psicodélica. A letra, cantada de forma muito rápida, é um poema concreto ao melhor estilo Augusto de Campos, musicado por um grindcore acústico, que pode assustar os menos avisados.
O Ovo da Morte’ é apocalíptica na letra e na música. A melodia soturna lembra passagens cadenciadas de algumas músicas do Dead Kennedys. Ravel canta, de maneira dramática, sobre a distopia que é o mundo atual: um lugar atolado em miséria e tecnologias criadas para a destruição.
O álbum completo deve ser lançado ainda este ano, também em versão física. Até lá, a gente vai ouvindo as cinco faixas que podem ser conferidas abaixo: