VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Horror e beleza em Red Hookers


A vontade – mais ainda, talvez, a necessidade – de escrever sobre o belíssimo filme de Larissa Anzoategui, Ramiro Giroldo (roteiro) e Pedro Roza (fotografia) foi uma das razões da minha retomada destes arquivos. Red Hookers é, provavelmente, o primeiro grande filme de terror produzido em Mato Grosso do Sul; grande, não no sentido da extensão, pois se trata de um curta-metragem – ao contrário de Astaroth, do mesmo trio e em fase de conclusão –, mas pela qualidade de concepção e realização. Antes, portanto, que o novo marco certamente constituído por Astaroth venha à luz, é melhor eu fazer minha lição de casa.

Eu escrevi “belíssimo” e, com tudo de arriscado e inadequado que essa palavra pode conter, é ela que de fato me advém, agora que revejo o filme na íntegra pela quarta ou quinta vez. Naturalmente, não se trata de um trabalho sem problemas, mas se eu tentasse me ater a isso estaria cometendo dois erros: o de opinar sobre questões que conheço muito pouco (sobretudo as técnicas e as relativas às propostas e ambições do cinema de terror) e o de trair a aposta que eu sinto que, mais do que a mera avaliação, um trabalho desses merece.

O fato é que, descontados os inevitáveis detalhes, ainda mais numa produção semidoméstica e de baixíssimo custo, Red Hookers é mesmo um filme belíssimo. Apenas o capricho da produção, o primor dos enquadramentos, da iluminação e da trilha sonora, já seriam suficientes para reserver a este curta de 18 minutos um lugar de honra na filmografia do Estado. Mais que isso, porém, Red Hookers é um belo filme enquanto conjunção dos elementos fundamentais que constituem uma obra de arte; uma conjunção na qual o valor da concepção encontra não só correspondência como potencialização a nível de execução – em suma, uma ótima aliança entre roteiro, direção e demais recursos ou níveis construtivos.

(Atenção, no próximo parágrafo começam os spoilers! Quem não viu o filme, não deixe de vê-lo antes de prosseguir. Ele pode ser adquirido aqui.)


O primeiro trunfo de Red Hookers, naturalmente, é o roteiro, e a primeira virtude deste é sua absoluta simplicidade – a qual, longe de confinar com a pobreza, tem um caráter decididamente arquetípico. Em linhas gerais, a trama de Ramiro Giroldo nada mais faz do que recortar e duplicar – numa sequencialidade que praticamente resume o enredo – um dos elementos ou “fases” fundamentais dos contos de fadas: a armadilha. Nesse sentido, o filme pode ser visto como uma variação do, talvez, mais arquetípico dos contos de fadas, “João e Maria”, que por sua vez ecoa o conto bíblico de Adão e Eva. Não será o caso, aliás, de que o tema do incesto fraterno, abordado no filme de Larissa e Ramiro de forma não exatamente sutil, ilumina algo a respeito dessas duas narrativas?

Seja como for, é na forma como dialetiza e ressignifica os campos em conflito nas arquinarrativas de armadilha que reside a novidade de Red Hookers. Primeiro, pelo esvaziamento semântico do que se configuraria como o campo de uma moralidade positiva. Esse campo, cujo único esboço efetivo se dá na forma da harmonia fraterna e familiar sugerida pelas fotos das irmãs Karen e Karina na abertura, logo se dissolve no ar de hipocrisia pequeno-burguesa que passa a envolver as personagens pelo falseamanto da situação prática e existencial de uma delas perante a figura de poder presente-ausente da matriarca familiar.


Sobre essa figura, vale notar que tanto sua condição feminina quanto sua própria presença-ausência contribuem para investir sua autoridade de um caráter não só repressivo como autorrepressivo – que incide diretamente sobre Karen, a filha que ecoa sua voz “muda” –, no que tange à própria condição feminina.

De par com o esvaziamento do campo moralmente positivo, há a ausência da estigmatização absoluta do que se configuraria como o campo negativo – tanto mais sugestiva e interessante na medida em que Ramiro Giroldo opera uma releitura da mitologia lovecraftiana, na qual essa estigmatização é uma marca importante. Não que a negatividade se dissolva na positividade em Red Hookers, pois o horror é um efeito buscado e obtido, mas ela não deixa, em praticamente nenhum momento, de se investir ou se aliar a uma positividade que, ainda que perfeitamente amoral, não deixa de ser efetiva: a da beleza.


Sem dúvida que o horror estranha e deforma a beleza, mas em nenhum momento a abole ou inverte completamente, como é comum nos contos de fadas (pelo menos quando refugados pelo maniqueísmo hipócrita da sociedade de consumo). Por sinistros ou repulsivos que sejam os efeitos obtidos pela maquiagem das escravas de Cthulu, parece ter sido um ponto de honra que a beleza das atrizes fosse perceptível pelo espectador. Da mesma forma, quando nos deparamos com os olhos polanskianamente sinistros de Lady Shub ela não perde a pose, nem suas curvas, que deslizam diante da câmera a seguir, se tornam menos sensuais.

O próprio estranhamento, no entanto, tem duas faces: uma desconstrutora, que se volta sobretudo para os padrões da Lei patriarcal oculta, e outra potencializadora, que se dá pela assunção de um poder eminentemente feminino: um poder terrível, mórbido e ambíguo, não exclusivamente feminino, já que por trás dele existe Cthulu, mas cuja forma visível e sensível é eminentemente feminina. Esse empoderamento comporta, obviamente, o paradoxo da sujeição – e nesse sentido Red Hookers pode ser visto como uma fábula sobre a restrição dos horizontes utópicos numa sociedade decadente ou terminal como a nossa –, mas mesmo essa sujeição é relativa.


Afinal, nada é mais desconstrutor no que se refere à potência masculina no filme do que a única protoforma visível (pelo menos ativamente visível) assumida por Cthulu, ou seja, os três falos grotescos que a certo momento vemos em ação. Tanto pelo estranhamento gerado no espectador (inclusive por sua proximidade com a genitália feminina) quanto por sua fragilidade, essas protoformas sugerem menos poder do que decadência; tanto que Lady Shub precisará compensar seu fracasso valendo-se das mãos (o que pode lembrar piadas pouco elogiosas a respeito da eficácia dos pênis). E se Shub sugere que é Karina quem fracassa, nem por isso o êxtase glorioso com que esta “incorpora” Cthulu deixa ser virtude de sua beleza (mais que do “mal” que ele representa).

É verdade que também se pode dizer – prosseguindo nessa inquirição de microelementos simbólicos ou protossimbólicos – que as dançarinas masturbam um grande “falo”, mas enquanto esse falo está fadado à insensibilidade e permanece aquém de qualquer êxtase, é a sensualidade delas que emana vivamente.


A conjunção dos elementos básicos e auxiliares da construção fílmica também aponta nessa direção. Por exemplo, a fotografia límpida de Pedro Roza e a trilha sonora de Leonardo Copetti, que plasma o horror do “ritual” de “conversão” de Karen numa minissinfonia das profundezas e o clima de estranhamento predominante no filme numa harmonia eletrônica dissonante, mas também a dimensão de empoderamento da trama na batida seca e precisa que acompanha essa anti-harmonia, dando-lhe um ar meio cyberpunk. E quando finalmente Karen demonstra sua submissão a Cthulu, é um belo solo de sax (de Leonardo Cavallini, em composição em parceria com Copetti) que acompanha sua exibição, como que redesenhando melodicamente suas curvas.

Em suma, mesmo revestido pelo horror, pelo estranho e pelo grotesco, o belo feminino impera em Red Hookers (que nesse sentido faz lembrar a figura sensual-vampiresca de Mirza, a personagem de quadrinhos de Eugênio Colonnese, cuja complexidade e dimensão psicossocial, no entanto, é bem menor). Um filme que consegue essa proeza não merece ser chamado de belíssimo? Nessa proeza, no elogio que tece da beleza acima de tudo – acima da repressão, da submissão e do próprio medo –, Red Hookers é um filme, muito mais que terrível, libertário.

terça-feira, 14 de abril de 2015

De volta à sopa

Há tanto tempo que eu abandonei isso aqui às traças que, se elas quisessem, poderiam me expulsar alegando usucapião. Em todo caso, não vou me preocupar em expulsá-las. Se elas ocuparam os espaços deixados vagos por tantos assuntos que eu deveria ter abordado aqui se fosse fiel aos compromissos assumidos comigo mesmo, que fiquem onde estão – provavelmente, aliás, vão se reproduzir e espalhar por outros espaços, porque eu não nunca pretendi e muito menos pretendo agora ocupar todos. Mesmo assim, se quero o benefício de um leitor que seja, acho que preciso fazer meu mea culpa. Porque se eu posso dividir a responsabilidade desse sumiço com algo, é com o meu atordoamento, já que o deprimente processo eleitoral do ano passado e, sobretudo, a insensatez discursiva que o acompanhou e ainda se sucede a ele me tornaram um bocado cético quanto ao papel da internet como espaço de cultivo de uma consciência crítica ou benéfica em qualquer sentido.

Mas claro que isso é uma grande injustiça. A internet é parte de um tipo de “expansão da consciência” que pode não ser a coisa mágica dos esotéricos mas que certamente existe. É preciso, no entanto, escolher os espaços; e o fato é que o espaço público e discursivo a que mais me dediquei nos últimos anos simplesmente não me serve. Não vou negar sua importância, mas a mim ele não serve. Tenho a impressão de que o Facebook (acho que as maiúsculas soam mais saudavelmente impertinentes que as minúsculas, constitutivas da própria marca) tem como grande resultado esvaziar as pulsões íntimas mais fortes que conduzem um sujeito à escrita, assimilando-as a esquemas simplificadores e levianos. Por mais séria que seja uma postagem, a procupação com os julgamentos alheios quase sempre predomina, e estabelece o primado dos mecanismos de conveniência ou exibicionismo. Claro que para muitos isso é parte de processos de sociabilidade e desrecalque decerto importantes, mas de minha parte estou saco cheio disso: não só de ser conivente como de me sentir praticando isso.

Este blog miserável, por menos leitores que tenha (e acho que eu consegui perder os poucos que tinha), ainda é um espaço no qual me sinto à vontade de uma forma mais efetiva para dizer o que efetivamente penso e sinto, e no qual posso tratar com um pouco mais de vagar de questões que eu acho que merecem isso.

Mas, enfim, por enquanto é isso: só pra dizer que os arquivos críticos (sim senhor, com o benefício das minúsculas) estão de volta. Não esperem grande coisa, aliás, não esperem nada. Não porque saber esperar não seja uma virtude nesses dias em que as sombras voltam a se adensar ante o fim de mais uma ilusão prolongada (cujo início não data dos governos Lula, e sim da neoliberalização do Brasil), mas porque a experiência comprova que isto aqui não merece o crédito exigido pelas grandes promessas. Isto aqui é no máximo como a sopa ralada de Jards & Wally – é uma forma também, afinal, de voltar àquela grande merda líquida, como a definiu um amigo. Com a diferença de que, graças aos deuses, nesta aqui ninguém precisa curtir porra nenhuma.