VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

domingo, 27 de julho de 2014

O horror na Palestina e a guerra ideológica, ou de repente é melhor ficar calado


O que está acontecendo hoje na Palestina é de uma atrocidade monstruosa. Não que a História não nos dê outras mostras de abuso assassino de poder por parte de governos de países que se dizem civilizados; o fato é justamente que isso que acontece agora só é comparável a esses eventos.

Quase tanto quanto esse horror em si mesmo, no entanto, uma outra coisa tem me deixado atônito: a dificuldade de intervir, ainda que num âmbito puramente discursivo, nesse quadro. Claro que são mazelas desiguais, mas a segunda de alguma forma agrava a primeira. Essa dificuldade, por vezes quase impossibilidade, parece ter duas razões principais: 1) a, essas alturas, ultrabanalização da violência – e dos discursos sobre ela – promovida pela mídia e 2) os desacordos ideológicos que, por mais que alimentem, de há muito ajudam, mais que tudo, a inviabilizar o pensamento critico.

Quer digam respeito a pontos fundamentais ou não, ou fato é que esses desacordos ganham tal volume e importância que os faz sobressaírem em relação ao que quer que se possa chamar de princípios: os parâmetros éticos e, mais ainda, morais – referentes, mesmo, a uma moralidade íntima – derivados das percepções e decisões primárias que em tese fundamentam as próprias posições criticas: a percepção das injustiças e dos sofrimentos infligidos por elas, e a recusa a ser conivente com isso.

Parece normal, e talvez inevitável, que essas percepções e sentimentos se alienem e reifiquem em alguma medida nas concepções e “posições” políticas que afinal abraçamos, mas é sem dúvida um mau sinal quando isso não se inverte nem mesmo nas situações extremas. Quando a necessidade de reivindicar a paz, por exemplo, encontra obstáculo em reivindicações que não concernem à estrita sobrevivência de inocentes.

Não quero inverter a posições das vítimas e dos algozes. Sou inteiramente favorável ao Estado Palestino (de fato, e não meramente formal como o de hoje), como seria ao de Israel, se fosse essa a questão que estivesse em causa; e muito embora seja, em última instância, antinacionalista, pois acredito que a supressão de todo e qualquer limite territorial seja um objetivo imprescindível na construção, como diz uma canção, da “tal futura humanidade”.

A questão é outra: é que o apelo à paz não pode ser senão bilateral. Para além, até mesmo, de toda lógica pacifista, a desigualdade gritante entre as forças do Hamas e as de Israel exige, imperiosamente, que essa queda de braços se dê em outro campo, do qual os aparatos bélicos estejam decididamente excluídos. É isso ou a eterna reiteração dessa lógica absurda do heroísmo cruel do terrorismo, e ainda mais cruel e absurda quando, não bastassem as vítimas, os próprios mártires são seres mais inocentes.

Mas parece que não estamos prontos para isso, e a impossibilidade desse apelo – que eu sei que existe em outras vozes – encontrar o eco necessário da vontade de silenciar. De pelo menos, como diz o filosofo Robert Hullot-Kentor, não ser mais uma peça nessa conexão sinistra, mais um bip nessa “rede” pelo visto perfeitamente inútil. Por pouco não faço dessa postagem minha última neste blog igualmente inútil, mas, enfim, é preciso continuar, e estas são minhas únicas pernas.

P.s. - Texto publicado no Facebook convidando à leitura da postagem: Amig@s, ficarei grato a quem ler a breve reflexão que acabei de publicar em meu blog. Suponho que alguns de vocês não concordem estritamente com o que digo – se é que fui claro o suficiente, e se não fui esclareço de uma vez: acho que, tanto quanto o governo de Israel está agindo de forma criminosa, o Hamas agiu de forma errada e, no mínimo, irresponsável. Lembrei agora que pelo menos um de vocês, devidamente marcado abaixo, já se manifestou nesse sentido. Mas, enfim, o texto não versa tanto sobre isso quanto sobre a dificuldade de sequer se DISCUTIR isso. Até por isso, gostaria de pedir um favor aos que eventualmente me lerem e quiserem comentar, inclusive aos discordantes: que se expressem preferencialmente no blog (que aceita até comentários anônimos, e onde também vou postar este texto), e não aqui, pois há muito perdi a ilusão de que este seja um espaço de discussão efetivo. Também gostaria de explicar o seguinte: há uma foto, de corpos de palestinos, que quase usei para ilustrar o texto e que foi, talvez, o principal motivo de eu tê-lo escrito. Vi essa foto na página de um amigo, também marcado, e não soube como agir: não tive coragem de compartilhá-la e muito menos de “curti-la”. Nesses momentos, essa ideologia da curtição do Face (ou Fake?) me soa perfeitamente abominável. Depois pensei em compartilhá-la pedindo que quem não tivesse coragem de fazer o mesmo pelo menos não “curtisse”, mas esse gesto agressivo seria uma contradição evidente com minha própria covardia. No fim das contas, também não consegui usar a foto no blog. É muito difícil lidar com o horror. Mesmo assim, o silenciamento quase generalizado me assombra. Mas, enfim, quem disse que este grande espelho das vaidades é algo como um fórum político, não é mesmo? Mas e a ruas? Quantos protestos contra a barbárie na Palestina estão ocorrendo em nosso país, onde a imigração árabe foi de grande importância? E em nosso estado? Sei que muit@s de vocês compartilham essas inquietações.