VIVENCIAL

Viver o cotidiano não exime da tarefa de pensá-lo, como não o faz a prática de experienciar a cultura em suas formas mais acabadas, inclusive naquilo em que nelas se imiscui a chamada vida comum. A proposta deste blog é constituir um espaço de intersecção entre esses campos vivenciais para pessoas que, como nós, têm na reflexão crítica um imperativo para a existência digna do corpo e do espírito – individual e social.

domingo, 27 de julho de 2014

O horror na Palestina e a guerra ideológica, ou de repente é melhor ficar calado


O que está acontecendo hoje na Palestina é de uma atrocidade monstruosa. Não que a História não nos dê outras mostras de abuso assassino de poder por parte de governos de países que se dizem civilizados; o fato é justamente que isso que acontece agora só é comparável a esses eventos.

Quase tanto quanto esse horror em si mesmo, no entanto, uma outra coisa tem me deixado atônito: a dificuldade de intervir, ainda que num âmbito puramente discursivo, nesse quadro. Claro que são mazelas desiguais, mas a segunda de alguma forma agrava a primeira. Essa dificuldade, por vezes quase impossibilidade, parece ter duas razões principais: 1) a, essas alturas, ultrabanalização da violência – e dos discursos sobre ela – promovida pela mídia e 2) os desacordos ideológicos que, por mais que alimentem, de há muito ajudam, mais que tudo, a inviabilizar o pensamento critico.

Quer digam respeito a pontos fundamentais ou não, ou fato é que esses desacordos ganham tal volume e importância que os faz sobressaírem em relação ao que quer que se possa chamar de princípios: os parâmetros éticos e, mais ainda, morais – referentes, mesmo, a uma moralidade íntima – derivados das percepções e decisões primárias que em tese fundamentam as próprias posições criticas: a percepção das injustiças e dos sofrimentos infligidos por elas, e a recusa a ser conivente com isso.

Parece normal, e talvez inevitável, que essas percepções e sentimentos se alienem e reifiquem em alguma medida nas concepções e “posições” políticas que afinal abraçamos, mas é sem dúvida um mau sinal quando isso não se inverte nem mesmo nas situações extremas. Quando a necessidade de reivindicar a paz, por exemplo, encontra obstáculo em reivindicações que não concernem à estrita sobrevivência de inocentes.

Não quero inverter a posições das vítimas e dos algozes. Sou inteiramente favorável ao Estado Palestino (de fato, e não meramente formal como o de hoje), como seria ao de Israel, se fosse essa a questão que estivesse em causa; e muito embora seja, em última instância, antinacionalista, pois acredito que a supressão de todo e qualquer limite territorial seja um objetivo imprescindível na construção, como diz uma canção, da “tal futura humanidade”.

A questão é outra: é que o apelo à paz não pode ser senão bilateral. Para além, até mesmo, de toda lógica pacifista, a desigualdade gritante entre as forças do Hamas e as de Israel exige, imperiosamente, que essa queda de braços se dê em outro campo, do qual os aparatos bélicos estejam decididamente excluídos. É isso ou a eterna reiteração dessa lógica absurda do heroísmo cruel do terrorismo, e ainda mais cruel e absurda quando, não bastassem as vítimas, os próprios mártires são seres mais inocentes.

Mas parece que não estamos prontos para isso, e a impossibilidade desse apelo – que eu sei que existe em outras vozes – encontrar o eco necessário da vontade de silenciar. De pelo menos, como diz o filosofo Robert Hullot-Kentor, não ser mais uma peça nessa conexão sinistra, mais um bip nessa “rede” pelo visto perfeitamente inútil. Por pouco não faço dessa postagem minha última neste blog igualmente inútil, mas, enfim, é preciso continuar, e estas são minhas únicas pernas.

P.s. - Texto publicado no Facebook convidando à leitura da postagem: Amig@s, ficarei grato a quem ler a breve reflexão que acabei de publicar em meu blog. Suponho que alguns de vocês não concordem estritamente com o que digo – se é que fui claro o suficiente, e se não fui esclareço de uma vez: acho que, tanto quanto o governo de Israel está agindo de forma criminosa, o Hamas agiu de forma errada e, no mínimo, irresponsável. Lembrei agora que pelo menos um de vocês, devidamente marcado abaixo, já se manifestou nesse sentido. Mas, enfim, o texto não versa tanto sobre isso quanto sobre a dificuldade de sequer se DISCUTIR isso. Até por isso, gostaria de pedir um favor aos que eventualmente me lerem e quiserem comentar, inclusive aos discordantes: que se expressem preferencialmente no blog (que aceita até comentários anônimos, e onde também vou postar este texto), e não aqui, pois há muito perdi a ilusão de que este seja um espaço de discussão efetivo. Também gostaria de explicar o seguinte: há uma foto, de corpos de palestinos, que quase usei para ilustrar o texto e que foi, talvez, o principal motivo de eu tê-lo escrito. Vi essa foto na página de um amigo, também marcado, e não soube como agir: não tive coragem de compartilhá-la e muito menos de “curti-la”. Nesses momentos, essa ideologia da curtição do Face (ou Fake?) me soa perfeitamente abominável. Depois pensei em compartilhá-la pedindo que quem não tivesse coragem de fazer o mesmo pelo menos não “curtisse”, mas esse gesto agressivo seria uma contradição evidente com minha própria covardia. No fim das contas, também não consegui usar a foto no blog. É muito difícil lidar com o horror. Mesmo assim, o silenciamento quase generalizado me assombra. Mas, enfim, quem disse que este grande espelho das vaidades é algo como um fórum político, não é mesmo? Mas e a ruas? Quantos protestos contra a barbárie na Palestina estão ocorrendo em nosso país, onde a imigração árabe foi de grande importância? E em nosso estado? Sei que muit@s de vocês compartilham essas inquietações.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Consciência, alienação e comunicação


Vejam se a terceira palavra do título acima não soa fora do contexto...

É que a esquerda e a intelectualidade brasileiras – e falo como alguém que, mal e porcamente que seja, tenta se inserir nesses dois campos – sofrem de um mal antigo: a dificuldade crônica, quando não o desinteresse, de estabelecer formas de comunicação efetivas com a população. Com a expressão “comunicação efetiva” quero designar algo bem diferente do pragmatismo que rege as relações discursivas instituídas atualmente entre esses campos todos; algo, para resumir, cujo horizonte não sejam nem os fins nem os meios, mas os conteúdos dos atos comunicativos.

Lembro-me, quando militava no então moribundo PCB (que logo depois viraria PPS, sendo mais tarde “ressuscitado” por militantes da “ala histórica” do Rio), de ter ouvido mais de uma vez uma alegoria que era mais ou menos assim: o comunismo é como o sol; mas a luz do sol é muito forte, tão forte pode que pode cegar; então não se pode mostrar o sol diretamente para o povo, mas apenas reflexos seus (as reformas), para que, pouco a pouco, o povo se acostume com sua luz...

Não gostava dessa alegoria, e hoje, quando o rótulo “comunista” já não me satisfaz nem um pouco, gosto menos ainda. Não pretendo negar a qualquer agrupamento político o direito de acreditar e afirmar que suas concepções sociais são tão grandiosas quanto o sol – acredito sinceramente numa humanidade emancipada –, mas a alegoria é tão perniciosa quanto equívocada: a questão nunca foi e nunca será apontar e olhar para “o sol”, e sim para aquilo que ele ilumina no presente, no passado e num hipotético futuro, e se nos negamos a agir assim é porque agimos de má fé. É porque vemos “o povo” como massa de manobra.

A mesma esquerda que, fidelidades e infidelidades à parte, chegou ao poder político (ou pelo menos a um nicho importante dele, que é a Presidência da República) já há um bom par de anos, paga hoje o preço de não ter construído uma comunicação efetiva com o povo, e agora vemos o mesmo eleitorado que há ainda pouco tempo aprovava largamente os governos Lula e Dilma dar sérias mostras de pendores reacionários.

Pode ser que essa comunicação efetiva não interessasse efetivamente, mas mesmo quando o interesse é palpável a dificuldade de melhorar o nível do debate é gritante. Vide, por exemplo, Lula tratando as manifestações anti-Copa com praticamente os mesmo termos (“ficam dizendo que não tem hospital...”) utilizados por Pelé. Enquanto isso, o movimento “Não vai ter Copa” demonstra muito pouca sensibilidade em relação às demandas populares.

Esses dias conversei com um militante de esquerda que se recusa a tentar dialogar com “o povo”, o qual ele identifica automaticamente com “os evangélicos” (argumentando que estes constituem 37% dos religiosos no Brasil atualmente). E cita como exemplos de uma alienação extrema que inviabilizaria qualquer diálogo as mais de 15 mil mulheres reunidas recentemente no centro de Campo Grande pela Igreja Universal e a popularidade do bordão “Picarelli do céu!”. “Campo Grande é a terra do Picarelli do céu!”.

De minha parte, eu, que pego ônibus quase todo dia, estou convicto de que existe uma demanda não só de transformação como de compreensão da realidade entre as pessoas “do povo”; mas enquanto a esquerda e, pior ainda, os intelectuais (“de esquerda”) guardam para si a consciência histórico-social – a compreensão dos mecanismos históricos e sociais que regem a realidade – que deveriam compartilhar, essa demanda é satisfeita pelos engodos de sempre.

Talvez seja o caso de a esquerda aprender com os evangélicos, que, antes dos estádios de futebol e dos canais de televisão, vendiam seu peixe de porta em porta, no diálogo, franco ou não, mas direto com as pessoas. Nosso peixe – a justiça social efetiva, que passa pela abolição da exploração econômica e das desigualdades sociais – talvez seja menos atraente, até porque ele não oferece nenhuma salvação post mortem. Mas se acreditamos nele precisamos tentar compartilhá-lo, ao invés de apenas reparti-lo entre nós, como pérolas ociosas em congressos universitários ou partidários ou petiscos em conversas de mesa de bar.

E vão desculpando o excesso de alegorias... espectros do Partidão?


terça-feira, 15 de abril de 2014

Vandré, elegia e utopia

À memória de meu pai.

Desde que voltou do exílio, há mais de 40 anos, Geraldo Vandré vem insistindo que seus verdadeiros algozes não foram os generais, e sim os meios de comunicação. A afirmação de que sequer foi torturado pelo regime militar, além de suas amizades na Força Aérea Brasileira, para a qual chegou a escrever uma canção, despertaram em muitos a suspeita de que teria enlouquecido; o que várias evidências, inclusive a sobriedade demonstrada nas poucas entrevistas concedidas nesse período, parecem desmentir.

O fato é que o verdadeiro boicote a que, mais do que a figura, a obra de Vandré é submetida desde o AI-5 é um grande desserviço prestado pela mídia à cultura e à sociedade brasileira. Um entre muitos, aliás: quantos brasileiros conhecem o trabalho de Sivuca ou Egberto Gismonti, e, hoje em dia, mesmo Tom Jobim ou Chico Buarque?

O caso de Vandré, no entanto, é um pouco mais dramático. Não só pelo isolamento auto-imposto como porque ele foi um dos artistas que mais buscou, muito mais que dialogar com a cultura popular, efetivamente se comunicar com o povo. Tanto que “Pra não dizer que não falei das flores” é até hoje uma das canções mais conhecidas do nosso cancioneiro midiático-popular.

Mas Geraldo Vandré não é um músico de uma música só – ou duas, se contarmos com “Disparada”. Sua obra comporta pelo menos cinco discos (além de canções esparsas e trabalhos gravados por outrem, como a “Paixão segundo Cristino” gravada por um coral da Ordem dos Dominicanos), que incluem várias pérolas de beleza indiscutível, como “Rosa Flor”, “Porta Estandarte”, “Se a tristeza chegar”“Canção nordestina”, todas estas do excelente 5 anos de canção, de 1966.

Essa semicoletânea, como lembra o texto de Franco Paulino na contracapa, deve muito ao trabalho de Vandré na trilha sonora do filme A hora e a vez de Augusto Matraga, que coroa sua busca de ir além da influência do jazz e da bossa nova, sobretudo pela incorporação de elementos da música nordestina em “Requiém para Matraga”e “Fica mal com Deus”, a primeira uma balada agalopada e a segunda uma espécie de forró (ao passo que “Canção nordestina”, oriunda do primeiro álbum, de 1964, é uma espécie de bossa nova sem suingue, com marcação seca, “agreste”), ambas trabalhados no disco com simplicidade magistral pelo conjunto Trio Novo.

Mas também a qualidade dos sambinhas é notável. “Porta Estandarte”, por exemplo, contém um jogo de vozes belíssimo, que materializa musicalmente a ideia da letra, que é a aliança das aspirações do cantor com as da porta-estandarte em sua condição comum de aspirações coletivas.

Hora de lutar (1965) e Canto Geral (1968), os discos mais engajados de Vandré, talvez sejam menos atraentes musicalmente. No primeiro, por exemplo, alguns arranjos jazzísticos destoam um pouco das letras políticas. Mesmo assim, vale a pena conferir “Samba de mudar”, parceria meio experimental de Vandré com Baden Powell (como outras citadas aqui), que começa com um sambão corrido e depois vira um jazzão enjoado (mas volta pro sambão etc.), e as belas “Vou caminhando” e “Canta Maria”. E também em Canto Geral há bons frutos, como “Maria Rita”, “De serra, de terra e de mar” e a feroz “Aroeira”.


O trabalho mais marcante de Vandré, no entanto, é o último (quem sabe, apenas por enquanto), o disco de exílio Das terras de Benvirá. Embora gravado na França
em 1970, com um grupo de músicos brasileiros reunidos de improviso, e que teria vida longa como o Quinteto Violado, este talvez seja o disco brasileiro mais pungente de todos os tempos. Várias vezes a comoção toma a conta da voz de Vandré, que nem por isso, até pelo contrário, perde em força e beleza. A voz de Vandré, aliás, é uma das mais bonitas da chamada MPB. Os arranjos, ainda mais básicos que os do Trio Novo, se adequam com perfeição à expressão sentida das letras e inflexões melódicas. Voz e violões choram juntos as dores do exílio.

Das terras de Benvirá condensa com intensidade única – como só as condições adversas de sua produção poderiam permitir – os dois elementos fulcrais da poética literomusical de Vandré: a veia sentimental, marcada pelo tom elegíaco e pelos sentimentos da dor e da perda, e a pulsão utópica, onde não raro uma nota elegíaca também emerge, seja pela empatia com o sofrimento dos desvalidos, seja pela dura consciência (justa ou não), como canta “Vem vem”, de que “a morte às vezes é solução”. Mas é a belíssima “Canção primeira” que dá forma mais plena a essa dolorosa duplicidade. Depois de pedir perdão à companheira por não poder “cortar caminho / Nessa caminhada / Que é pra te encontrar”, Vandré canta e grita “a esperança / Que vem vindo o dia de poder voltar / Sem ter na chegada que morrer, amada, / Ou de, amor, matar”.

Coletânea lançada nos anos 80, e que inclui
"Pra não dizer que não falei das flores",
censurada em 1968
Talvez, no fim das contas, esses elementos também ajudem a explicar o desconhecimento generalizado do trabalho de Vandré. A seriedade de suas letras e a densidade comovida de sua voz são o avesso do espírito de banalização extrema e alegria a todo custo que anima os tempos. Mas há algo mais simples que isso: mensagens como a de “Ninguém pode mais sofrer” – sintetizada nesse título mesmo – são ao mesmo tempo muito simples e muito fortes para serem cantadas e decantadas por aí.

Só isso explica, por exemplo, que a já diluída onda indie nacional não tenha redescoberto Vandré. Várias canções de 5 anos, como “Porta Estandarte” ou “Rosa Flor”, ficariam ótimas com os Los Hermanos, em arranjos climáticos ou sambas-rock. Que eu saiba, dentre os músicos e bandas de destaque das últimas décadas, só a Charlie Brown Jr. regravou Vandré: uma ótima versão, aliás, de “Pra não dizer que não falei das flores”.

Mas há outras flores, espalhadas em outras canções, certamente menos adequadas a passeatas mas quase sempre igualmente marcadas pela premência do tempo que há em “Caminhando”. Canções como a “Canção do breve amor”, que lamenta “a perdida flor / Que longe floresceu / E o homem não colheu pra o seu amor”. Mais ou menos como tantas flores de Vandré, com a diferença de que estas estão vivas e muito perto de nós.


P.S.: Acabei de encontrar essa versão anterior (1966) de “Porta Estandarte”, gravada por Vandré e Tuca, cuja voz é muito parecida com a de Nara Leão. Vale a pena ler o textinho no youtube.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Entre risos e ruínas: uma semana de teatro em Campo Grande

Nada como ter constatado, ao fim da semana em que se comemora o Dia Internacional do Teatro (dia 26 de março), que Campo Grande e Mato Grosso do Sul têm plenas condições de comemorar e honrar essa data. Foi o que demonstraram o Festival Boca de Cena, composto por nove espetáculos, e as duas montagens de textos de Plínio Marcos – o inédito O bote da loba e o consagrado Navalha na carne –, ambas no fim de semana retrasado, com a primeira reprisando no seguinte.
Oito dias de surto teatral, que infelizmente não pude acompanhar e vivenciar integralmente; do Boca de Cena, mesmo, assisti menos de 50% dos espetáculos: não teria direito sequer a certificado. Mesmo assim tentarei não só falar dessa semana especial como refletir brevemente sobre as condições atuais do teatro em Campo Grande a partir dela.
Sobre O bote da loba já escrevi esse outro post, mas aqui é um bom lugar para esclarecer algumas coisas a partir de informações que obtive junto ao grupo Mercado Cênico. Primeiro, quanto à origem do texto: trata-se de um trabalho de 1997, o último de Plínio Marcos, que pretendia escrever uma segunda parte mas abandonou a ideia. Daí certo ar de inconclusão, ou melhor, de fecho em aberto, que no fim das contas agradou ao dramaturgo.
Segundo, quanto à obtenção do texto, que se deu via contato de Carin Loro, atriz e estudiosa da obra de Plínio, com sua família. Uma verdadeira honra, como ela mesma definiu. E terceiro quanto à magnífica cena da dança, que de fato, como intuiu um amigo, é um acréscimo do grupo. E como elogiei a cena em meu texto, nada mais justo cumprimentar o grupo por ela.
Boca de Cena
Passemos, então, d’O bota da loba ao Boca de Cena. O primeiro espetáculo que vi no festival foi uma montagem de O santo e a porca, de Suassuna, pelo grupo Fulano di Tal. Várias coisas chamam a atenção nessa montagem. Em primeiro lugar sua indiscutível qualidade técnica, que no entanto reforça certas fórmulas de encenação e interpretação. Trata-se, afinal, de uma transposição do teatro popular de Suassuna para o palco italiano no contexto da nossa sociedade midiática, e é quase inevitável que o “padrão Globo” das adaptações do dramaturgo se reflita nessa proposta. A vantagem inegável é o grau de comunicação com o público.
Em segundo lugar há a questão da adaptação do texto de Suassuna. Embora, talvez, um pouco excessivos, os acréscimos humorísticos e modernizantes raramente chegam a ferir o espírito do original. Os maiores problemas, parece-me, derivam da redução deste. A dicotomia santo/porca, por exemplo, importantíssima no texto e na construção de Euricão, praticamente desapareceu na montagem. Talvez em função disso, o fim da peça foi praticamente reescrito. Quando Euricão ameaça quebrar o santo (perdoem o spoiler), aí sim é difícil reconhecer o espírito de Suassuna, tão zeloso da religiosidade popular e seus ícones. Ao mesmo tempo, o paroxismo que toma o personagem é sem dúvida um elemento dramático interessante. Além disso, em compensação, sua nova fala final inverte esse paroxismo numa tocante aceitação das “lições” do santo – o que é coerente, justamente, em função do paroxismo anterior –, enquanto o texto de Suassuna se conclui de forma aberta.
Enfim, entre perdas e ganhos, a montagem da Cia. Fulano di Tal dá uma demonstração de qualidade técnica e profissionalismo que são fundamentais na cena teatral de uma capital como Campo Grande.
Quem matou o morto?, o espetáculo seguinte a que assisti no festival, é um texto de um autor local, Breno Moroni. Trata-se, basicamente, de uma comédia circense com elementos de denúncia política, já que o morto em questão é um general da ditadura militar, cuja caveira é muito bem representada pelo crânio de uma espécie de monstro. Em contrapartida à covardia desse período tenebroso, a Cia. de Teatro e Circo M'Boitatá deu por si mesmo uma demonstração do heroísmo do teatro na figura da única atriz em cena, que não deu uma demonstração sequer das condições adversas (que não vou mencionar aqui) sob as quais atuou.  O trio, aliás, foi praticamente impecável, tanto nos diálogos quanto nas estrepolias circenses.
Só o título me pareceu um pouco fortuito. É verdade que a “resposta” (com muitas aspas) à questão que ele coloca se coaduna com o humor surreal do texto, mas a interrogação talvez pudesse ser inserida de forma mais orgânica ou explorada de forma mais criativa no interior da peça. Em todo caso, é sem dúvida um trabalho digno de Moroni, nome dos mais importantes na cena local, de quem eu já havia visto o belíssimo Os corcundas e de quem, dois dias depois, ainda vi o excelente Godgle. Mas isso merece um item à parte.
Godgle e a recriação terminal
A ideia, ou melhor, a “sacada” de Godgle é simples: reencenar a criação do mundo como instauração simultânea das mazelas e catástrofes produzidas pela humanidade ao longo da História. O Google, nesse sentido, é um mote para esse olhar retrospectivo, ao mesmo tempo que emerge como ícone máximo de um tempo em que essa acumulação ruinosa, não obstante mais visível do que nunca, se articula cada vez mais à alienação e à esquizofrenia social.
Também aqui a dramaturgia une o sério e o circense, mas agora numa espécie de equilíbrio tenso. A inspiração explícita em Esperando Godot é apenas um ponto de partida, já que Bob 1 e Bob 2 se desdobram em ações que Gogo e Didi nem sonham em executar; além disso, enquanto Godot é uma presença-ausência enigmática, que se manifesta na forma pueril de um jovem mensageiro, Godgle é uma presença-ausência, digamos, muito mais pragmática, cobrando tributos em espécie ou cartão e inspirando cultos descabelados que dão uma mostra do estado atual da religiosidade.
Mas a crítica de Godgle não se dirige apenas às religiões ou mesmo às sociedades modernas. Seu alcance é antropológico, ou melhor, psico-antropológico: por exemplo, na demonstração de que juntamente com a propriedade privada nasce o fetiche pelo outro; e sobretudo na encenação de uma criação do mundo na qual o elemento feminino está ausente, e que reflete as condições deste nosso velho e podre mundo patriarcal.
É curioso, nesse sentido, o contraste de Godgle com O bote da loba, onde, inversamente, apenas duas mulheres ocupam o palco, e onde, ao contrário do texto de Breno Moroni, produz-se um tipo de conciliação. Para além das questões de cunho sexual, penso que esse contraste se alia à centralidade demandada pelo feminino – não “pelas mulheres” – hoje, quem sabe como uma etapa para a construção de um equilíbrio mais efetivo dos seres e entre eles.
No mais, se for preciso criticar algum aspecto da peça, eu diria apenas que ela podia ser mais curta. Alguns espisódios me pareceram desnecessários e repetitivos, sobretudo no que tange à própria religião. É verdade que o efeito de vertigem causado pelo acúmulo de “absurdos” alegóricos é importante, mas por vezes a sutileza de uma crítica bem articulada ao humor, capaz de ecoar por muito tempo na consciencia ou mesmo no subsconsciente do espectador, se dilui a seguir numa crítica mais ostensiva. É claro que seria preciso dar exemplos específicos, e talvez eu possa fazer isso quando assistir a filmagem da peça. Por enquanto, fico devendo.
A cena e as demandas
Mas posso, nesse ponto, tentar elaborar minhas considerações gerais sobre a situação do teatro em Campo Grande, ou, talvez mais propriamente, da relação desse teatro com o público (de cuja perspectiva, na verdade, parte minha própria avaliação). Os termos da questão já foram colocados: a oscilação, dialética ou como quer que se concebam as relações entre a intenção séria e a intenção humorística, presente em todas as peças citadas; inclusive O bote da loba, que arrancou risos da plateia antes que o pudor (da própria plateia) falasse mais alto. E também, é claro, em O santo e a porca, onde o humor ganhou mais espaço que no original, por conta de inserções nas falas e na rubrica.
Breno Moroni
Mas é nas peças do próprio Moroni que a questão se coloca de forma mais interessante, já que se trata de obter equilíbrios – e tensões – mais delicados. Em Quem matou o morto?, a denúncia política intervém de forma quase pontual, mas com virulência suficiente para marcar a peça como um todo. Tanto que, à saída do espetáculo, várias rodas de conversa discutiam a questão da ditadura militar. Em Godgle, no entanto, a dialética de tensão e equilíbrio é mais difícil, e talvez reflita com mais propriedade a situação geral que tenho em mente.
Em vários momentos da peça foi possível notar manifestações de riso excessivas ou ligeiramente deslocadas na plateia. O que é natural num público diversificado – incluindo adolescentes e mesmo crianças – como, felizmente, foi o do festival; além disso, pelo menos uma vez um dos atores, Anderson Lima, afrontou diretamente a situação, voltando-se para o público e debochando de seu riso por meio de um riso “sem graça”. Esse gesto, que eu supunha programado no texto, foi um improviso do ator, como ele mesmo me revelou. E é exatamente essa situação referente à relação com o público que eu penso que deve ser encarada frontal e programaticamente pelos realizadores de teatro em Campo Grande.
Trata-se, em suma, de uma pequena – e riquíssima – encruzilhada. No estado atual de sua relação com o público, que é basicamente um público em formação, esses realizadores têm a chance de decidir entre fazer um teatro sério (em sentido amplo), eventualmente de vanguarda, ou um teatro popular. Ou, melhor ainda, de explorar conjuntamente essas possibilidades, com pesos diferentes mas levando em conta todos os elementos em jogo. Ou seja, de fazer um teatro sério que leve em conta e pense criticamente as demandas do público, incluindo aí a questão do humor.
Este, aliás, é um bom ponto para inserir um comentário sobre a montagem de Navalha da carne pelo Circo do Mato, que, como o nome indica, é ou era uma trupe circense (a mesma, aliás, que montou o já referido Os corcundas). Pois o texto visceral de Plínio foi a primeira montagem inteiramente séria do grupo. Assisti-a duas vezes, e, em que pese o desafio de personagens dificílimos, fiquei muito impactado pelo desempenho dos atores. E note-se que entre esses personagens há um, a travesti Violante, com uma forte potencial caricaturesco, que o ator Mauro Guimarães soube evitar, compondo uma figura tipificada mas nem por isso menos densa e dramática. O Circo do Mato encarou um desafio – um salto do circense para o dramático – e o venceu.
Não estou sugerindo que o humor seja inferior ao drama: Aristófanes, Shakespeare, Moliere ou mesmo Beckett e Ionesco morreriam de rir (ou me matariam a punhaladas) se eu pensasse isso. Aliás, 16 de março é não só o Dia do Teatro como o Dia do Circo, também festejado pelo Boca de Cena.
Estou me referindo, apenas, à situação da cena atual de Campo Grande e às demandas relativas ao tipo de público e de teatro ela quer construir. Aliás, aos tipos de público e teatro, pois a pluralidade é tão importante quanto a unidade – ou melhor, a união, e isso esses oito dias de surto teatral demonstraram que existe e pode se fortalecer ainda mais no Estado. Entretanto, quanto mais isso se der numa dialética viva e crítica (ou seja, não meramente comercial) com o público mais amplo possível, é óbvio que todos só têm a ganhar. A perder, só os grilhões.Merda!

domingo, 23 de março de 2014

Plínio Marcos dá o bote em Bigfield

A montagem de um texto inédito de Plínio Marcos numa capital ainda provinciana como Campo Grande é um evento que não pode passar em branco nestes pobres arquivos; ainda mais se tratando de um texto ousado e atual, que trata da sexualidade de forma desabrida e polêmica, ainda mais nestes tempos de paranoias neo-evangélicas...

Aliás, supreende que somente agora, e nessas condições incomuns, O bote da loba tenha sido montado. Não sei nada sobre as condições do original, se ele constitui, por exemplo, um trabalho inconcluso, ou mesmo a data de sua produção. Um amigo e colega, Julio Galharte, cogitou que alguns elementos possam ter sido acrescentados na montagem. Ainda assim, e não obstante relativamente curto e, talvez, dando a impressão de demandar algo mais, trata-se um belo texto, que dá prova da inteligência viva de Plínio Marcos.

O contraste das duas cenas inaugurais, por exemplo – quando aos lamentos e angústias de Laura a cartomante não opõe qualquer discurso, mas uma dança vívida e sensual, quase ofensiva diante do estado da outra –, beira a genialidade, instaurando de forma surpreendente a tensão que animará toda a peça até a grande concilação final. (Se bem que justamente a dança o Julio sugeriu que possa ser um acréscimo; se o diretor puder se pronunciar a respeito...)

O tema declarado de O bote da loba é a sexualidade feminina e sua repressão no mundo moderno, mas o tratamento desse tema ao longo da peça é tão explícito (quase, digamos, em mais de um sentido) quanto sutil. Numa das passagens de humor mais refinado, Laura ouve a descrição das funções de uma espécie de especialista em excitação do corpo feminino que existiria nas comunidades ciganas, e diante de sua incredulidade a cartomante responde que nem todos são loucos ou doentes (como na civilização moderna), subentende-se, para prescindir de tais serviços... Mas chega de spoliers.

Para um estudioso de Machado de Assis e leitor de Clarice Lispector, é impossível não destacar o contraste entre a cartomante de Plínio – que, como me informou o mesmo Julio, estudava tarô a sério – e as deles (em “A cartomante” e A hora da estrela). Não que precisemos dar crédito, necessariamente, a tudo o que ela diz: como o título sugere, pode se tratar, apenas, do bote de uma loba... Mas sua positividade é inequívoca: mais que a inteligência oportunista de suas colegas, ela cumpre o papel de uma analista e terapeuta das mais eficazes. E não importa se ela age em proveito próprio: seus atos são libertadores, não só para o corpo como para a alma de Laura. Para além da que da sexualidade, aliás, O bote da loba trata da unidade do corpo e da alma.

Como não sou crítico de teatro, além de não conhecer o texto, não me sinto à vontade para avaliar a montagem. Só posso louvar a seriedade e a coragem de seus realizadores. As interpretações são fortes e convincentes, embora talvez um pouco aquém da complexidade das personagens (tive a impressão de que algumas vezes as atrizes deixaram transparecer certa preocupação com a plateia, que por sua vez – e como no caso da peça de Jair Damasceno que comentei nesse outro post –, ao final parecia um tanto atônita).

Mas seria preciso conferir as rubricas e, a bem da verdade, assistir de novo. O que eu faria com prazer, se no dia em que escrevo isto, e que é o mesmo da última apresentação de O bote..., outra peça de Plínio Marcos não estivesse em cartaz, e também na segunda e derradeira apresentação... Mas um dia, tenho certeza, as coisas vão ser diferentes, e uma peça “em cartaz” vai fazer jus a essa expressão por aqui.

Muita merda, Plínio! Muita merda, Aline Calixto, Patrycia Andrade, Vitor Hugo e toda a produção de O bote da loba! Viva o Teatro de Campo Grande!

quarta-feira, 5 de março de 2014

Ucrânia: rumo à liberdade ou ao neofascismo?

Nas últimas semanas, os olhos do mundo têm se voltado para a Ucrânia. A agitação política envolvendo duas das maiores potências mundiais (EUA e Rússia) chama a atenção e preocupa. Em geral, os meios de comunicação tendem a levar o expectador ao apoio dos revoltosos. Porém, há dois lados na moeda, ou vários lados no cubo, o que cairia melhor para a situação. 

Para quem acha que a revolta na Ucrânia é símbolo de liberdade, apresento Oleh Tyahnybok: líder de uma ala abertamente simpática ao nazifascismo e apontado por muitos como um dos maiores antissemitas do planeta, ele vem sendo um porta-voz da "revolução ucraniana". Basta digitar seu nome e procurar por notícias no 'Google' ou qualquer site de busca. Ao citar as manifestações, o brasileiro 'Estadão' traz parte de entrevista dada pelo mesmo, e para os desavisados passa despercebido. Nela, o nome de Tyahnybok aparece apenas como um então líder da oposição defendendo uma postura antigovernamental, sem quaisquer detalhes de que oposição seria essa. Quem são os líderes do movimento que depôs o agora antigo governo? Quem está na nova disputa política?

Em matéria divulgada pelo 'Daily Caller', divulga-se que o partido de Tyahnybok conseguiu três (!) ministérios no governo provisório. A saber, seu partido é o 'Svoboda' (ironicamente "liberdade", em português), cuja agenda é ultranacionalista, de extrema direita e xenofóbica (defendem políticas de segregação a poloneses, russos e judeus). Para entender melhor a situação, é interessante apontar que historicamente o nazifascismo soube explorar o sentimento de povos em crise e sem esperanças. Foi com promessa de "liberdade" e "salvação" para o próprio povo alemão, afetado por uma crise mundial e pela derrota em uma guerra, que Hitler conseguiu prestígio apresentando-se como um super-herói redentor. E é esse mesmo sentimento que o 'Svoboda' pratica: em meio a uma agitação profunda, o partido de Tiahnybok apresenta argumentos de como o país está perdido e que a única salvação seria que eles tomassem o poder. Mais uma vez, o inimigo público histórico é considerado o responsável pela crise: o judeu e o estrangeiro, no caso russos e poloneses.

Na Crimeia, região que tem sido o olho do furacão nos últimos dias, a maioria da população tem origem russa. Fala-se em independência, em anexação à Rússia. Ativistas da região alertam para o perigo da facção conhecida como 'Setor Direita', que tem sido um nome forte nestes tempos de agitação política. Os esquerdistas mais exaltados chamam a deposição do antigo governo de "golpe nazifascista". A população da Crimeia teme que o crescimento do 'Svoboda' faça com que seu idioma - o russo - seja proibido, dentre diversas outras medidas. Em matéria divulgada pelo site da revista brasileira 'Carta Capital', um dos ativistas russos declara: "eles dizem que precisam lutar contra nós, russos e judeus. Devemos ver isso de braços cruzados?". No site do jornal 'Voz da Rússia', Tyahnybok diz que "serão necessárias brigadas de propaganda, para realizar atividades esclarecedoras no seio das populações orientais".
 
Ao se unirem para derrubar o governo de Yanukovych, os partidos opositores ao ex-presidente ignoraram todas suas diferenças. Liberais se uniram ao 'Svoboda' com o objetivo de depôr o então governo, como uma aliança por um bem maior. Ao praticarem tal união, cometeram um erro histórico já praticado por centristas diversas vezes, como no golpe de 1964 no Brasil, quando a UDN apoiou os militares que mais tarde os colocariam na clandestinidade, ou quando diversos empresários e políticos declararam apoio a Mussolini e Hitler para livrarem-se do "perigo vermelho". A história tem muito a ensinar e, no caso atual, devemos acompanhar e esperar que o pior não se repita mais uma vez.

Neto Liberator

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Rolê, rolezinho ou rolezaço, tamo junto


Hoje, em Campo Grande, acontece algo que, se não for inédito, talvez seja quase: um evento que reúne expressões do rap e do rock da cidade. É muito provável que eu esteja enganado – tomara que esteja –, mas o que eu vi mais perto disso, até agora, foi a noite (na verdade houve mais de uma) em que o Holandês Voador abriu as portas para a galera do rap e hip-hop. Foi uma noite exclusivamente deles, mas na qual assuntos como o parentesco do rap com o rock e o punk, a necessidade de união das tribos etc., circularam em mais de uma roda. Afinal, o Holandês Voador é (ainda é, mesmo temporariamente naufragado) o templo do rock de Campão.

Hoje, porém, a 6ª edição do Rolê Rolista tem expressamente esse objetivo: unir o rock e o rap de Campo Grande. Entre os artistas, estará presente o rapper Dumatu, que recentemente apareceu nos noticiários do Estado denunciando tortura sofrida por policiais, após ser detido devido a uma infração que não negou, pelo contrário, assumiu completamente. Esse sujeito de rara coragem – de peitar o poder, de assumir seus erros e de se engajar em causas válidas (confiram aqui o clipe de “Kaiowá Guarani”) – abre esse evento igualmente corajoso.

Mas este não é mais de meus posts sobre a cena musical de Campo Grande. Minha ideia é propor uma reflexão antecipada sobre um evento que ainda está por ocorrer, mais exatamente sobre suas motivações. Acredito que já existisse essa demanda, de criar eventos unindo o rock e o rap na cidade. Mas é curioso que ela se concretize agora, quase paralelamente, além dos fatos envolvendo Dumatu (e, antes dele, outro rapper e ativista da cena musical de Campo Grande, o multi-artista Dudu Miranda), aos chamados “rolezinhos”.

Não estou supondo que a galera do rap seja a mesma dos rolezinhos. O rap e o hip-hop são exercícios de consciência crítica e de expressão musical-corporal. Os rolezinhos são curtições em shopping-centers, que muita gente “crítica” de classe-média não demorou a taxar de coisa de alienados. O que pode até ser verdade (embora eu me pergunte quantas dessas pessoas “críticas” não vão ao shopping), mas não desmente o mérito que os rolezinhos tiveram de colocar em pauta o anseio de diversão dos jovens da periferia. Sim: diversão, às vezes, é solução sim, como diziam os Titãs. Provisória que seja, mas quem entre nós, roqueiros “brancos” e remediados, abre mão de nossas válvulas de escape?

Deve chegar o dia em que não serão mais necessários rolezinhos, em que rolezaços como o que deve acontecer hoje à tarde se espalharão pelo Brasil. Mas esse vai ser o dia, provavelmente, em que nunca mais se amarrarão negros pobres no poste ou na calçada, e talvez ele ainda demore um pouco. Até lá, vamo que vamo... sempre em frente porque não temos tempo a perder.

Já disse, num post anterior (justamente sobre a noite rapper do Holandês), que o rock tem muito o que aprender com a galera do rap. Disse isso como diletante metido a roqueiro, e congratulo, agora, a galera do rock que promove o Rolê Rolista pelo espaço que abrem para o rap. Suponho que o pessoal do rap também tenha o que aprender com o rock, mas não conheço a realidade deles o suficiente para dizer exatamente o quê.

Pra fechar, registro que esse evento tem como patrocinador um novo estúdio musical de Campo Grande, que, acredito, tem como proposta a mesma do evento, ou seja, ser um canal para o rock e o rap da cidade e do Estado. Tomara que ele seja fiel a essa proposta, tornando-a realmente viável.

Digo isso porque outro dia um amigo de nome sonoro, Jorge Ostemberg, me pediu para que escrevesse algo sobre empreendedorismo, uma questão que tem me interessado mas sobre a qual descobri que não tenho nada a dizer, a não ser isso: que há empreendimentos que podem valer a pena não pela alta rentabilidade que extraem ou prometem, mas pela importância e coragem do que realizam.

Vida longa ao rock, ao rap e à musica de Campo Grande!

domingo, 12 de janeiro de 2014

Batateogonia




Ao amigo Wellington Fernandes


I - GÊNESIS


“Em verdade, no princípio, tudo eram batatas, mas depois veio Elma Chips, de amplos seios, e Pepsi, o deus das trevas e dos gases. Da união de Elma e Pepsi, fez-se a Luz, que iluminou as batatas. Elma contemplou a Luz e disse: ‘comam-se as batatas’. E as batatas foram comidas.


Em seguida, Pepsi, que tudo vê, vendo que as batatas eram boas, disse: ‘crescei e multiplicai-vos’. Então as batatas ocuparam todo Universo. Elma chamou a isso de Batatais.

Sob as folhagens dos imensos pés de batata, surgiu Penumbra, filha do onisciente Pepsi e da onipotente Elma.


No segundo dia, Elma teve sede e conheceu o sofrimento. Dos seus olhos então brotaram lágrimas, que molharam os Batatais. Pepsi, bebendo das lágrimas, viu que elas eram boas e disse: ‘faça-se a água’. Foi quando, dos olhos de Elma, criou-se o Oceano, inundando grande parte dos Batatais.

"Sob as folhagens dos imensos pés de batata surgiu Penumbra..."
O Sol surgiu no terceiro dia, o Oceano ferveu e cozinharam-se as batatas. Pepsi provou das batatas e do caldo, dando a este último o nome de Água de Batata.

Tudo ainda era desabitado. E assim, da Água de Batata, surgiram Darwin e todos os seres vivos que povoam o Universo.

Darwin disse: ‘dessa água jamais beberei’. Foi o quarto dia.

No quinto dia, Darwin foi dar um rolê, pra descolar umas mina, mas só encontrou batatas. Depois de andar muito, o homem deitou-se à sombra dos batateiros e adormeceu. Primeiro, sonhou que era Newton e que uma maçã caía sobre sua cabeça; depois, sonhando que era um sábio chinês, que sonhava que era uma borboleta, que sonhava que era Raul Seixas, sonhou que uma serpente de sete cabeças enroscava-se sete vezes em torno de um pé de batata.

– Não quis assustar-te! – disse a serpente – Meu intuito era fazer-te a Grande Revelação.

E a revelação foi feita:

– Se queres descolar umas mina, rouba o fogo dos deuses! – aconselhou a serpente.


Quando Darwin acordou, viu que a serpente era o deus Brahma e os dois saíram para tomar uma Skol. Isso foi no sexto dia.


Embriagado, Darwin subiu aos céus e roubou a caixa de Fiat Lux de Elma Chips. Mas o homem, não sabendo dominar o fogo, acabou incendiando os Batatais. Daí, fez-se o Caos que perdura até hoje”.


II - OS ESTADOS DA MATÉRIA


Na natureza, a Água de Batata pode ser encontrada em três estados: São Paulo, Paraná e Bahia. Em Minas, decretou-se a moratória, e o governo federal cortou o fornecimento do fluido vital. Entretanto, como se diz por aí, nada se cria, nada se perde, tudo se transporta. Assim também é com a Água de Batata que, quando transportada pelos vários estados da natureza, adquire diferentes coloração, densidade, textura, brilho, viscosidade, maciez e volume.

"Na natureza, a Água de Batata pode ser encontrada em três estados..."
Deste modo, toda matéria – do chumbo ao ar, da verruga da sogra às curvas da vizinha – tudo é composto pela mesma substância: a Água de Batata, em suas incontáveis formas de manifestação. Por isso, os textos sagrados afirmam que somos Água de Batata e à Água de Batata retornaremos.

III - UNIPUNK

Naquele tempo, éramos apenas estudantes latino-americanos, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e habitantes da cidade universitária Severino Faz – editor da revista Gente que Vaz e criador de toda a Universidade.

No sétimo dia, Darwin estava numa puta ressaca animal: dormiu o domingo inteiro e só foi acordar na manhã seguinte. Era uma segunda-feira e, como já se aproximava a hora do almoço, caminhamos a pé, da moradia à Unipunk. O mundo era então um interminável campus de batata, um verdadeiro Éden Batatal. Quando chovia, levávamos quarenta dias e quarenta noites para percorrer o caminho. Naquela segunda, porém, como fazia sol, chegamos ao bandejão por volta do meio-dia. A fila era uma serpente que dava volta ao mundo e mordia a própria cauda. E, por não termos outra opção, resolvemos enfrentá-la assim mesmo.


Logo à nossa frente, encontramos Don Juan, velho índio feiticeiro, que veio puxando conversa conosco. Ele era um sujeito muito estranho, mas já estávamos acostumados e deixamos o velho falar.

"Logo à nossa frente, encontramos Don Juan..."
Tomamos a refeição, conversando banalidades, como, por exemplo, sobre o que poderia ser aquela sobremesa do dia, uma espécie de doce que nunca se vira antes. Cada um deu uma resposta diferente, sem que chegássemos a uma conclusão. Era um manjar dos deuses, uma gelatina ou um tipo de pudim?

Foi então que Dom Juan interrompeu a discussão:

– Isso é feito de água de batata!

Rimos todos, com exceção do próprio Don Juan. Como é que aquele doce marrom meio gelado, com gosto de maizena, consistência de escargot e cheiro de remédio poderia ser de água de batata?!?


Don Juan permaneceu sério, olhou firmemente para cada um de nós e disse:


– Quando sairmos daqui, peguem um desses doces dentro de um só copo por pessoa e vamos até o Ciclo Básico!


Seguimos as instruções do velho índio.

"...enquanto o velho entoava uma canção monotônica, rouca..."
Quase às duas horas, estávamos sentados no chão, em círculo, cada um com um pequeno pedaço de doce na mão direita, em volta de Dom Juan.

– Agora – disse ele – esfreguem o doce nas têmporas e fechem os olhos.


Fizemos isso, enquanto o velho entoava uma canção monotônica, rouca, de efeito hipnótico...


IV- SEGUNDA-FEIRA

“Conheci a vigília, o sono, os sonhos,
a ignorância, a carne, os torpes labirintos da razão,
 
a amizade dos homens, 
a misteriosa devoção dos cães.”
(Jorge Luis Borges - João, I, 14)

...de repente, minha visão tornou-se esfumaçada. A voz de Don Juan deu cambalhotas no ar, metamorfoseando-se em Pablo Milanés, Mercedes Soza e o time titular quase completo do Cerro Porteño.

Maya surgiu em minha frente e disse: “Tudo é ilusão! Tudo são batatas!”

O tempo, correndo em todas as direções, era um animal em fuga, impedido pelas quatro paredes. Não sei como explicar o que houve, mas ainda estávamos no Bandejão e, de repente, tive uma clareza absoluta das coisas, como se só agora, enfim, despertasse: o doce, cuja natureza discutíamos, sem dúvida era feito mesmo de Água de Batata; o frango frito, o feijão, o arroz, a salada, tudo era Água de Batata; as colunas, o teto, as mesas e o chão eram Água de Batata; a bandeja era Água de Batata. A Água de Batata era uma espécie de fluido energético que se infiltrava em toda matéria. Mais do que isso, compunha toda matéria!

Olhei para Dom Juan e meus colegas. Eles também não passavam de Água de Batata, transformados em gente pelo poder de Maya. Eu próprio era Água de Batata.  Pelas veias do meu corpo inteiro, senti correr o líquido onipresente, pulsando com a mesma energia iniciada desde o Big-Bang. Havia algo, por trás da aparência de tudo, que igualava e unia os seres e as coisas. A mesma substância adquiria os mais diversos aspectos, mas, em essência, tudo era o mesmo.

Tudo era Água de Batata!!! Tudo, absolutamente tudo!!!


"...sonhando que era Darwin que sonhava que era Newton que sonhava..."
Até os pensamentos que eu tinha...

Saí do bandejão e caminhei pelos intermináveis campos de batata, durante quarenta dias.

Quarenta dias mais permaneci sob a sombra de um Batateiro Sagrado, sonhando que era Darwin que sonhava que era Newton que sonhava que era um sábio chinês que sonhava que era uma borboleta que sonhava que era Raul Seixas que sonhava que era eu, dormindo à sombra de um batateiro. Os séculos descreveram uma espiral e continuei sonhando, a percorrer infinitamente o traçado em direção ao centro: fui um dos vinte mil arqueiros de um dos vinte mil exércitos derrotados por Buda; fui um cangaceiro, um cavaleiro andante, um metalúrgico do ABC; conheci os deuses do amor, do pecado e da morte; amei Guinevere, Beatriz e Macabéa.


Passei fome no deserto, também conheci o luxo e o desperdício. Desfrutei dos prazeres da carne, tive os membros mutilados e matei até o arrependimento. Atingido por uma bala perdida no morro onde morava, fui a própria bala, invadindo apressada meu próprio cérebro. Caí na calçada e meu corpo foi jogado de um barranco. Sangrei e conheci a dor. Nasci outras milhares de vezes, outras milhares de vezes morri.

Na última dessas mortes, toda história da Unipunk passou pela minha mente, num relâmpago – desde quando tudo eram batatas, até aquele momento em que esfregávamos o doce nas têmporas. Senti que não estava só, que era forte e que jamais esqueceria... depois, vi apenas a escuridão absoluta, o silêncio, a imobilidade, o vazio, o nada....




... quando dei por mim novamente, estava no Bandejão, no ano passado, conversando com o Wellington sobre o que seria a sobremesa misteriosa daquela segunda-feira. Pareceu até que não sabíamos. E talvez nem soubéssemos mesmo...


Talvez simplesmente não quiséssemos nos lembrar ou talvez também tudo não passasse de Água de Batata!

Fabio Dobashi

Desenhos feitos especialmente para esta postagem por Muriel Vieira a meu pedido, com o objetivo, também, de comemorar os três anos de vida dos arquivos críticos. Obrigado, Muriel! Obrigado, Fabio!

Pra fechar, vale a pena conferir o vídeo de Ricardo Botini para a primeira parte do conto do Fabio no link abaixo.